BBB: O espelho da sociedade

 

                                                            (Fonte: Google imagens/João Luiz)


Por algum tempo eu era uma daquelas pessoas que não assistia Big Brother e criticava quem assistia, mas nesse ano, eu escolhi me alienar um pouco dos acontecimentos do Brasil e do mundo. Estamos passando por momentos difíceis e a nossa saúde mental está debilitada. Constatei que não tem problema às vezes nos afastarmos das notícias, ou não estar a fim de ler algum livro educacional e escolher um pouco de entretenimento, então resolvi assistir ao programa da edição 21.

O programa já começou intenso, já nas primeiras semanas muita coisa aconteceu, dando a impressão de já ter passado meses de confinamento, enquanto muitos de nós torcíamos por alguma briga supérflua. Parecia que nem mesmo no BBB21 estávamos livres de assuntos pesados. Mas, como querer separar as coisas? sendo que os participantes são seres humanos, com seus defeitos e qualidades, erros e acertos, suas desconstruções e preconceitos, em pleno 2021, onde pautas sociais, pautas antirracistas, pautas LGBT + e muitas outras estão em destaque e as minorias conquistaram espaço.

Escrevo esse texto pois, um momento me chamou a atenção, durante o jogo da discórdia de segunda – feira (05/04), o participante João, expôs um acontecimento entre ele e Rodolffo que o incomodou. Rodolffo havia ganhado o monstro e sua missão era se vestir de homem da caverna e ficar na posição destinada até a música parar e o figurino compunha uma peruca desgrenhada, Rodolfo fez um comentário infeliz, comparando a peruca com o Black Power de João, que o ajudava a se vestir.

Não é a primeira vez que Rodolffo solta comentários problemáticos, um deles foi ter zombado da roupa de Fiuk para uma festa, que se parecia com um vestido, não só Fiuk se incomodou, como Gilberto também se incomodou.

Voltando ao jogo da discórdia, João expôs seu incômodo no ao vivo, como aquele comentário o fez sentir mal, pois é algo que ele sofre desde que nasceu, João foi as lágrimas, Rodolffo numa tentativa de se “desculpar”, como muitos fazem nessas situações, quis se justificar, dizendo que não fez por mal e que o cabelo de seu pai também é igual ao de João e que não falaria algo que também afetasse seu pai.

Eu não sou negra, não sei como é se sentir discriminada pela cor da pele ou pelo cabelo, mas não preciso ser para ter empatia e entender que João estava sofrendo, que aquilo o incomodou verdadeiramente. O que me incomodou mais ainda do que a tentativa esdruxula de justificar o injustificável de Rodolffo, foi como repercutiu nas redes sociais, muitos comentários onde pessoas brancas, de cabelo loiro, liso dizendo “desnecessário”, “João quis lacrar”, “João quis fazer VT”, “Por que ele não falou antes, teve que esperar o ao vivo?”, “João não se aceita e está de mimimi” e muitos outros comentários de se revirar o estômago e infelizmente alguns desses comentários vindo também de pessoas negras, mas como já dizia Simone de Beauvoir “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”. Parece uma tentativa desesperada de aceitação da pessoa que está na situação de oprimida.

A questão no momento era o João e seus sentimentos, ninguém tem o direito de julgar que ele estava apenas fazendo VT, essa dor estava doendo nele, apenas nele e se ele esperou o ao vivo para falar, qual o problema? Foi o momento em que ele se sentiu confortável em se expressar. Muitas vezes em nossas vidas passamos por situações que nos deixam sem reação, na hora não vem nenhuma resposta ou argumento, deixamos passar o momento e só depois aquela resposta certeira aparece. Quantas vezes isso já não aconteceu com todos? E se aquilo realmente nos incomodou e tivermos a oportunidade de voltarmos no assunto, é direito nosso falar. Quantas pessoas não esperam para resolver assuntos depois, preferem esfriar a cabeça, reorganizar as ideias e depois conversar? Mas se esquecem disso e só sabem julgar o outro, enfim, a hipocrisia.

Rodolffo sempre diz que veio de um lugar onde todos são preconceituosos, que ele é chucro e que está lá para se desconstruir, repete várias vezes o mesmo texto, “me ensinem se eu fizer algo de errado”, mas ele já é adulto para saber discernir algumas situações e caso tenha alguma atitude que ele não se perceba errado, ele precisa estar aberto para receber a informação.

Se recordarem do episódio do vestido, Rodolffo estava no paredão aquela semana, usando a mesma justificativa, “não sabia, “você não me disse que te incomodou”, não foi por mal”, ele teve uma conversa com Fiuk na madrugada, ali parecia que estava arrependido, ele estava na frente para sair, mas depois dessa conversa, as pessoas amoleceram o coração e contornaram o jogo. Rodolfo permaneceu na casa e logo depois da eliminação, em uma conversa com outro participante ele solta “então eu não estava tão errado, pois no mundo de hoje em dia, é tudo mimimi”. No mínimo ele devia apenas ter agradecido o público pela chance, mas soltou esse comentário infeliz.

Na internet me deparei com uma definição de alguém sobre “mimimi”: “é a dor que não dói na gente”. Pessoas, entendam, não é sobre vocês, é a dor do outro! Cada um tem seus gatilhos, cada um tem suas dores e vivências, cada ferida dói de um jeito diferente, se não dói em você, não significa que não vai doer no outro, não diminua a dor do outro!

Mais empatia, por favor!

 

Texto por: Ketlyn Lima

Instagram: @ketlyn_cat


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